(18/12/2003)
A questão do trânsito nas grandes cidades já se
tornou um problema crônico. Ruas estreitas, tráfego intenso
e estacionamento junto a calçadas inviabiliza o processo de entregas
no período diurno. É uma situação de demanda
crescente superior à capacidade do sistema viário existente.
A taxa de motorização na cidade vem crescendo de maneira
assustadora e descontrolada. Nas ultimas décadas, essa taxa passou
de seis para dois habitantes por veículo, significando 300% de
crescimento. Cidades díspares como São Paulo, Recife,
Porto Alegre e Curitiba enfrentam o problema através de medidas
que elegem os veículos automotivos com porte acima de uma tonelada
como os inimigos do sistema viário. Por isso, esses veículos
tiveram sua circulação regulamentada e dificultada, nas
áreas mais afetadas pelo fluxo de veículos.
As estimativas do Sindicato das Empresas de Transportes de Cargas do
Estado de São Paulo -SETCEST, milhares de toneladas de produtos
são entregues diariamente aos estabelecimentos varejistas, abrangendo
um mercado consumidor de aproximadamente 18,5 milhões de habitantes
do Estado de São Paulo. Somente na capital, circulam nessa operação
complexa 20 mil caminhões diários, que se somam a quatro
milhões de veículos, provocando constantes engarrafamentos.
A velocidade média desenvolvida é de 33 km por hora, causando
congestionamento,acarretando custos adicionais para as transportadoras
e clientes, devido ao acréscimo de pessoas na operação.
Para contornar o problema, os municípios tem tomado algumas medidas
paliativas. A pioneira, São Paulo na década de 80, após
constatar a existência de uma zona nevrálgica, denominada
sistema viário crítico ( 370 quilômetros de vias
públicas, sendo realizadas 9 milhões de viagens por dia
), achou por bem proibir a circulação de veículos
com peso bruto total acima de 1,5 tonelada no quadrilátero formado
pelas avenidas Rebouças, Brasil, Brigadeiro Luiz Antonio e Paulista,
no horário entre às 6 e 22 horas, durante os dias de semana,
e das 6 às 14 horas aos sábados.
Na década de 90 a cidade de São Paulo, optou pelo rodízio,
proibindo a circulação de determinados veículos,
em função do seu final de placa, em determinado dia da
semana, no centro expandido da cidade, das 7 às 10 horas e das
17 às 20 horas. Além disso, criou-se as Zonas de Máxima
Restrição de Circulação- ZMRC onde apenas
veículos especiais, com dimensões regulamentadas, podem
circular durante o dia para complementar estes programas, a Companhia
de Engenharia de Tráfego - CET, a cinco anos vem sensibilizando
fornecedores e varejistas sobre a necessidade e os benefícios
de utilizar o trabalho com a entrega noturna. Além de fazer com
que a carga e a descarga de grandes volumes sejam deslocadas do horário
comercial para o horário noturno, isto é, das 22 horas,
a CET, cuja missão, é de tornar os deslocamentos da produção
da melhor maneira o possível, garantindo assim a qualidade de
vida, criou a filosofia de entregas através do Veículo
Urbano de Carga - VUC. É um caminhão de menor porte com
dimensões apropriadas para áreas urbanas. Seu comprimento
total é inferior a 5,5 metros e sua largura varia até
2,2 metros, possuindo capacidade de carga útil superior a 1500
quilogramas. Nessas condições, eles estão liberados
para trafegar na capital paulista na ZMRC ( quadrilátero delimitado
pelas avenidas Brigadeiro Faria Lima, Brigadeiro Luiz Antonio, Paulista
e rua Cardeal Arcoverde ). Devido ao seu tamanho pode ser estacionado
em uma vaga para veículo de passeio. Com o mesmo propósito
do VUC existe também o Veículo Leve de Carga - VLC, que
possui comprimento total entre 5,5 e 6,30 metros e largura até
2,2 metros. Este, no entanto, não está autorizado a circular
nas áreas de restrição das 15 às 20 horas.
Para a utilização dos veículos as empresas não
necessitam realizar qualquer tipo de cadastramento. Basta ter as dimensões
corretas e o peso valendo o limite da Lei Balança.
Em função da expansão das ZMRC, como também
a conclusão de parte do trecho Rodo - Anel , ligando todas as
rodovias que chegam ou saem da capital, deverá ser revisto o
conceito de veículos de distribuição urbana dentro
da grande São Paulo, migrando para veículos de menor capacidade
com flexibilidade de tráfego conforme os horários definidos
pela CET, contribuindo para a redução de veículos
de carga circulantes dentro das áreas de restrição.
A grade de horários proposta pela CET é a seguinte :
ABASTECIMENTO \ VEÍCULOS \ HORÁRIO
VAREJO \ PEQUENOS \ 9:00 ÀS 20:00
VAREJO \ MÉDIOS \ 20:00 ÀS 22:00
ATACADO \ GRANDES \ 22:00 ÀS 06:00
VAREJO \ MÉDIOS \ 06:00 ÀS 09:00
Considerando que das 7 às 18 horas o sistema viário de
São Paulo fica totalmente congestionado e o fluxo de veículos
vai diminuindo, chegando a ficar ocioso após as 22:00 horas,
a CET está difundido a cultura do abastecimento noturno da cidade.
Os transportadores e a industria são totalmente favoráveis,
enquanto o comércio ainda resiste a idéia. Mas, algumas
empresas já estão aderindo a entrega noturna. Para abastecer
as lojas do SAMs CLUB, o WAL-MART adotou na época, a técnica
cross-docking: os recebimentos sendo realizados somente durante o dia,
a carga separada para as unidades de Santo André,São Caetano
e Osasco, e na mesma noite é distribuída. Isso é
possível porque o clube de compras comercializa embalagens de
atacado e as mercadorias são expostas no ponto de venda sobre
os paletes. Portanto, a separação é menos complexa.
Todos os recebimentos são agendados. O WAL-MART recepciona caminhões
de fornecedores das 7:00 às 15:00 horas, prepara a expedição
a partir das 14:00 horas e libera as carretas para Santo André
e Osasco às 22:00 horas. Esse cronograma tem por objetivo repor
as prateleiras dos SUPERCENTERS em tempo hábil para atender os
clientes logo na abertura das lojas, as 7:00 hors.
Há três anos o grupo Pão de Açúcar,
que possui quatro CDs localizados na região de Osasco, movimentando
diariamente em média 5 mil toneladas de mercadorias, cerca de
80 % do volume dos produtos que abastecem suas 233 lojas existentes
na grande São Paulo . O abastecimento é realizado em todos
os pontos durante a noite após às 23:00 horas extendendo-se
até o início da manhã seguinte, utilizando VUCs.
Outras opções tem sido criadas como instalações
de CDs ao redor das grandes cidades,como é o caso do BOM PREÇO
em Pernambuco, que instalou a sua central de distribuição
no bairro da Muribeca, no município de Jaboatão dos Guararapes
na Região Metropolitana do Grande Recife. Os pedidos das lojas
chegam a central para serem processados e as mercadorias são
entregues no dia seguinte nos pontos de vendas. Para as mercadorias
de maior giro, utiliza-se a operação cross-docking.Além
de São Paulo, a adoção do veículo urbano
de cargas -VUC para a distribuição em grandes centros
como Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Recife e Porto Alegre, assim como
cidades com mais de 200 mil habitantes.
Na busca pelo aumento de competitividade e redução dos
custos totais do sistema logístico, os produtos devem estar nos
lugares certos, na hora certa, nas quantidades certas ao menor custo
possível ao consumidor.
Marcílio José Bezerra Cunha
Engenheiro e Administrador de Empresas, Consultor e Diretor do GELPE
|