:: Integração de Fornecedores na Logística das Fábricas
 


(22/11/2002)

Em 1920, a fabricação de automóveis consistia em construir chapas de metal, que depois eram moldadas por enormes prensas. Cada prensa recebia um molde para cada parte de carro. No início, a fábrica também produzia todas as peças do carro. Componentes que são vitais para o produto final eram sempre fabricados internamente. A verticalização é a estratégia que prevê que a empresa produzirá internamente tudo o que puder, ou pelo menos tenderá produzir.
A idéia de Henry Ford (Fazer produtos idênticos em série para atingir um mercado de massas) foi copiada à exaustão pelos mais variados setores. As grandes empresas praticamente produziam tudo que usavam nos produtos finais ou detinham o controle acionário de outras empresas que produziam os seus insumos. O exemplo clássico é o da Ford, que produzia o aço, o vidro, centenas de componentes, pneus e até a borracha para a fabricação dos seus automóveis. A experiência da plantação de seringueiros no Brasil, na Fordlândia no Amazonas. As principais vantagens da verticalização são a independência de terceiros. A empresa tem maior liberdade na alteração de suas políticas, prazos e padrão de qualidade, além de poder priorizar um produto em detrimento de outro que naquele momento é menos importante. Aos poucos, porém, a pesada indústria automobilística também começou a incorporar idéias desenvolvidas pelos fabricantes de coisas menores do que os carros. Uma delas era não fabricar todas as peças, mas mandar os outros fazê-las. As empresas passaram a contratar vários fornecedores de peças e a fazer da fábrica mas uma linha de montagem e menos de manufatura. Foi então que ficaram conhecidas como montadoras. Essa concepção está mudando com o desenvolvimento de parcerias estratégicas nos negócios. Outra situação determinante é aquele em que a fabricação de um componente exige altos investimentos, fora do alcance de eventuais fornecedores. Mesmo assim, são usuais as situações em que um grande fabricante financia as instalações de um futuro fornecedor, pois não interessa a ele produzir o referido componente. A essa estratégia operacional, chama-se Horizontalização, que consiste na compra de terceiros o máximo possível dos itens que compõem o produto final ou os serviços de que necessita. É tão grande a preferência da empresa moderna por ela que, hoje em dia, um dos setores de maior expansão foi o de terceirização e parcerias. Pouca gente sabe, porém, que o conceito da terceirização de um mesmo componente para vários fornecedores distintos foi lançado de forma pioneira pela IBM na década de 80. Ele foi adotado não só pelas fabricantes de veículos nas pelas indústrias de vários utensílios que habitam nosso cotidiano, como televisores, videcassetes, aparelhos de som, telefones computadores e até calçados como a Nike.
Na década de 90, os processos industriais passaram por uma transformação. A Cisco fabricante de equipamentos de telecomunicações e dos computadores, resolveu adotar uma forma radical de terceirização: a da própria linha de montagem. Ao desenhar o sistema de Consórcio Modular para a fábrica de caminhões e ônibus Volkswagen em Resende (RJ), que integra os fornecedores à linha de produção, a montadora alemã teve preocupação especial não só com a operação desse novo modelo de fabricação. Todos os empregados na linha de produção da fábrica são montadores, contratados pelas sete empresas parcerias: A Maxion (Montagem do Chassi), a Arvin Meritor (eixos e suspensão), a Remon (Rodas e Pneus), A Powertrain (Motores), a Delga (Armação da cabina), a Carese (pintura) e a VDO (tapeçaria). Os funcionários da Wolkswagen cuidam da administração, do desenvolvimento e engenharia dos produtos e das vendas. Dos 1850 empregados, 460 são Volks, 650 dos parceiros e os 740 restantes são terceirizados. Somente a Union Manten, prestadora de serviços que cuida da logística de alimentação das linhas, tem 100 funcionários dentro da fábrica.

A indústria automobilística sempre foi a grande introdutora de novas práticas logísticas no sistema produtivo. Esses métodos inovadores de relacionamento com a cadeia de fornecedores, implantados pela Toyota há quase vinte anos, são copiados e aplicados até mesmo em instituições financeiras. Uma das maiores inovações é a fábrica da General Motors em Gravataí (RS). A unidade gaúcha, que abriga a linha de produção do Celta, modelo compacto, vem sendo considerada o novo marco logístico.
Entre as principais inovações da fábrica da GM está redução drástica do número de fornecedores diretos à linha de produção. Enquanto a unidade de marca de são Caetano do Sul (SP), com sete décadas de existência, tem 400 fornecedores diretos espalhados pelo país, a nova planta contra com 17 sistemistas e outros 70 fornecedores dentro ou próximo ao complexo gaúcho. A operação de coleta junto aos fornecedores e a alimentação das peças na linha de produção e feita pelo sistema “Just-in-time in sequece” (entregue direta da peça na linha de acordo com a seqüência de produção), é realizado por um único operador logístico, a TNT Logístics.
No complexo industrial Ford Nordeste, implantado em Camaçari (BA), está instalada a fábrica, com capacidade de produção para 250 mil veículos por ano, exige uma das mais complexas operações logísticas já registradas na indústria automotiva brasileira. A operação de Just in Time se realiza a uma distância de 3 mil quilômetros do grande mercado supridor de São Paulo e entrega em Camaçari. Dos 300 fornecedores, em torno de 80% estão localizados em território Paulista” a metade da carga é transportada por rodovias em 60 carretas que trafegam ininterruptamente por 24 horas. A viagem é realizada com revezamento de motorista, de forma vencer o percurso no prazo máximo de 48 horas. O transporte da outra metade da carga é feita por via ferroviária, com carregamento diário de um trem com capacidade de 20 contêineres de 40 pés. Toda a operação terrestre é comandada pela Lean Logístics, que contrata inclusive as empresas transportadoras.

O transporte ferroviário, está a cargo da FCA- Ferrovia Centro Atlântica, para a transferência principalmente da CSN e da Usiminas, além de motores e transmissões da fábrica da Ford em Taubaté (SP). Outras industriais estão trazendo os fornecedores para dentro das suas linhas de produção. É a “Fábrica dentro da fábrica”, popularizando em segmentos de consumo não duráveis como alimentos, bebidas e material de Higiene. O objetivo é o mesmo: reduzir tempo de reposição de estoques e desperdício de materiais, ter maior controle e dar mais agilidade ao processo industrial. A Batávia pertencente ao grupo Parmalat fez parceria com a Tetra Pak, com uma unidade de garrafas plásticas dentro do seu complexo de laticínios em Carambeí (PR), resolvendo um problema logístico de trazer suas embalagens de uma fábrica do Rio Grande do Sul, economizando nos custos de transportes e não acumulando estoques. A Nestlé, levou o fabricante de embalagens Dixie Toga para dentro da sua unidade Tostines e São Luiz em São Paulo. Os funcionários da fornecedora ficam responsável pela reposição de estoques, controle de qualidade e corte de bobinas que serão usados para embalar os produtos que saem da linha de produção da Nestlé. A Dixie Toga, além de atender a Nestlé, tem operações dentro da Ambev e da Sorriso controlada pela Colgate-Palmolive, na área de cartuchos de papelão e filmes para bisnagas para creme dental.

A sincronia das produções dos fornecedores, em função da linha de fabricação do cliente, não significa a perda de identidade e culturas industriais. A informação de todos os processos estará disseminada em todos os sentidos, mesmo preservando detalhes particulares. Tanto os fornecedores como a fábrica, são autodependentes, formando um grande conjunto de produção.

MARCÍLIO CUNHA, PROFESSOR UNIVERSITÁRIO,
ENGENHEIRO E ADMINISTRADOR,
CONSULTOR DE EMPRESAS.


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